Monday, July 03, 2006

Os que são fascinados por histórias de mistério, suspense - como os instigantes romances policiais de Arthur Conan Doyle e Agatha Christie - certamente deveriam conhecer a história de Albino Luciani, o papa João Paulo I, morto apenas 33 dias após ter sido eleito para o cargo mais alto da Igreja Católica. A causa oficial da morte, segundo o sucinto comunicado do Vaticano, fora um “infarto agudo do miocárdio”. Mas não faltam indícios de que o “Papa Sorriso”, apelido que lhe conferiram por sua constante simpatia, teria sido assassinado. Por quem? E em quais circunstâncias? Há quem associe sua morte a uma famosa profecia do celebérrimo Nostradamus (1503-1566), o qual teria previsto, em suas famosas Centúrias (centúria 10, quadrante 12): O papa eleito será traído por seus eleitores/Eles o matarão porque ele era muito bondoso/Essa pessoa prudente será reduzida ao silêncio/Atacados pelo medo, eles conduzirão sua morte à noite.

Tais suspeitas afloraram no livro Em nome de Deus (In God’s Name), do jornalista britânico David Yallop, publicado no Brasil pela editora Record em 1984. Renomado investigador de crimes misteriosos, Yallop chegou, após longa pesquisa, à conclusão de que o papa teria sido vítima de uma conspiração de elementos clericais e mafiosos, os quais estariam sob investigação por inúmeros crimes contra o sistema financeiro, a saber:

- arcebispo Paul Marcinkus, presidente do Instituto di Opere Religiose (IOR, vulgo Banco do Vaticano), supostamente envolvido na fraudulenta compra do Banca Cattolica Del Veneto pelo Banco Ambrosiano, em 1972. Com a morte de João Paulo I e sua sucessão por Karol Wojtyla, Marcinkus tornou-se, curiosamente, o principal organizador das incontáveis viagens de João Paulo II ao exterior;

- Roberto Calvi, o “banqueiro de Deus”, beneficiário do esquema anteriormente citado e com fortes ligações com a Máfia siciliana, em especial com um de seus principais chefes, Michele Sindona, que estava sendo julgado nos EUA quando da morte de João Paulo I;

- Licio Gelli, suposto membro da P2 (Propaganda Due), loja maçônica italiana acusada de diversos crimes financeiros. Gelli foi um dos que financiaram a volta ao poder de Juan Domingo Perón na Argentina, tendo sido visto inúmeras vezes em Buenos Aires;

- John Cody, arrogante arcebispo de Chicago, acusado de desvio de verbas de sua arquidiocese (com uma extraordinária receita anual na casa dos milhões de dólares) e de destratar clérigos e fiéis. Seu lema era “só devo prestar contas a Roma e Deus”. Deveria ter sido removido do cargo por Paulo VI, mas este revogou a medida em mais uma de suas inúmeras demonstrações de insegurança e indecisão.

Um destes homens, segundo o livro de Yallop, teria tomado “um curso de ação” que envolveria a “Solução Italiana” para acabar com o novo pontífice naquele outono de 1978. Ao que tudo indica, João Paulo I pretendia, para os primeiros dias de outubro, anunciar a remoção de seus cargos de Gelli, Marcinkus e outros asseclas – o que os deixaria à mercê de processos criminais de acordo com a lei italiana.

Mas às 4:30 da manhã de 29 de setembro de 1978, a freira Vincenza (que servia o papa desde seus tempos de bispo em Vittorio Veneto) levou o café ao quarto do Sumo Pontífice. Após insistentes batidas na porta e estranhando a ausência de resposta de seu amo, ela entrou no quarto papal. Albino Luciani estava lá – morto, com expressão agonizante, com a cabeça virada para o lado. No chão da cabeceira da cama, manchas de vômito não passaram despercebidas pela religiosa que, apavorada, chamou o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal francês Jean Villot. Este mantinha severas discussões a respeito de outro tema que irritava a Cúria Romana, o famigerado órgão burocrático do Vaticano: a questão do controle de natalidade. João Paulo I desejara uma reversão da encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, a qual defendia as posições mais arcaicas da Igreja de combate ao aborto. É evidente que os cardeais mais apegados ao recentemente falecido pontífice eram contrários a toda e qualquer forma de contracepção, mesmo que tal dogma afastasse milhões de fiéis ao longo dos anos. Luciani, que já manifestara seu liberalismo com relação a alguns métodos anticoncepcionais (o mais conhecido destes era o do ritmo, também conhecido por "tabelinha"), teria todo o poder necessário para fazer valer suas convicções uma vez eleito pontífice.

A própria maneira com a qual o Vaticano lidou com a morte de João Paulo I só fez aumentar as suspeitas acima. Tudo porque uma série de mentiras foi inventada para encobrir um possível assassinato de um homem que encantara a todos por sua simpatia e naturalidade. Nenhum dos “príncipes da Igreja” gostaria de assumir que quem descobrira o corpo sem vida, de pijama, do papa fora uma obscura freira; a “versão oficial” sustentava que, ao invés dela, um dos secretários do pontífice teria encontrado o cadáver. Em se tratando de Sua Santidade, o Vaticano poderia ter providenciado uma autópsia para determinar a verdadeira causa da morte. Nada feito: o Direito Canônico proíbe que o corpo santo de um papa seja submetido a tão ignóbil exame.

É claro que o livro de Yallop, embora vendesse como pão quente, seria condenado pela imprensa “chapa branca” como inconsistente e mentiroso. Mas as provas colhidas pelo renomado autor inglês – ironicamente, batizado como católico romano – são demasiado evidentes como para dar qualquer crédito às mentiras da Santa Sé (fala-se em pelo menos seis pessoas envolvidas no escândalo de desvio de verbas do Banco do Vaticano). No conclave que elegeu João Paulo II (segundo Yallop, a única semelhança entre o ex-arcebispo de Cracóvia e o Papa Sorriso é o nome papal, João Paulo), havia a necessidade de se eleger um homem cujo carisma e imagem suplantassem imediatamente a ansiedade e as dúvidas a respeito da morte de seu breve sucessor. E a série de assassinatos perpetrados meses após aquele fatídico 29 de setembro de 1978 apenas alimenta as teorias de conspiração contra o homem que entrou para a história como o “Papa Sorriso”, mas também – e principalmente – como alguém que desejava limpar a Santa Sé da terrível mácula da corrupção e libertinagem que a assolam desde tempos imemoriais.